Cada vez mais começo a entender que o meu lugar não é aqui. Se existe uma pessoa com capacidade de me indicar esse facto, é a minha mãe. Começa a tornar-se quase diária a ideia de sair daqui e não mais voltar. Pode estar guardada breve uma surpresa. Quem me prendia a esta terra há muito que não o faz. Nunca mais o poderá fazer.
A ideia de partir, para qualquer lugar, acomoda-se na minha mente cada vez mais. Não farei falta a ninguém e ninguém sentirá a minha partida. Pessoalmente não sei bem qual é o meu lugar, mas também não interessa muito. Talvez seja um qualquer, talvez nunca vá a ser nenhum.
Subitamente o enjoo passou, mas caiu sobre mim a pior náusea que pode existir. De quando em vez, até mais do que era necessário, levo com as palavras que me fazem sentir cada vez pior. Ninguém precisa de me informar que sou um falhado. Eu sei que sou. Ninguém precisa de me fazer sentir a pior pessoa do mundo. Eu sei que sou. Mas as pessoas teimam em fazer isso, especialmente a minha mãe. Este é um dos momentos em que me apetece fugir...
Nem sei se estou aqui a dizer alguma coisa demais. Os meus amigos pensam que sou uma pedra inquebrável e que poucos ou nenhuns sentimentos tenho. Se soubessem a tristeza que me assola a alma na maior parte do dia... mas continuo a fingir que sou aquilo que não sou nem nunca fui.
Por vezes um sorriso, uma brincadeira, uma palhaçada, escondem uma tristeza tão grande, mas tão grande que nos faz perguntar o que andamos aqui a fazer e se realmente vale a pena viver. Habituei-me a constantes guerras psicológicas, a jogos de poder. Dividir para reinar.
Mas a verdade é que me pergunto diariamente se realmente vale a pena viver. Viver nestas condições, onde a nossa própria casa consegue ser o nosso maior inferno. Decididamente preciso de sair daqui a correr.
Um dia, numa nota de desespero, alguém escreveu em jeito de despedida "Já não há esperança.". Neste momento luto com todas as forças para dizer a mim mesmo que ainda existe alguma esperança para mim. Sinto-me vazio por dentro. Despejado de toda e qualquer noção daquela esperança que nos faz viver um dia e a seguir outro e depois outro e ainda mais outro.
Não tenho ninguém que me estenda a mão neste campo de areias movediças. Não ouço uma voz a dizer que ainda vale a pena. Era neste momento que precisava daquele gesto, daquele olhar, daquele carinho. Já não há esperança.
O meu coração, cansado e triste, vai batendo. Tenta agarrar uma vida que, ainda jovem, não faz sentido nenhum. Uma vida incipiente e banal.
Se tivesse alguma coragem, estava a dizer a uma pessoa, que estou a começar nutrir a sentimentos por ela. E que gostava que fosse ela a obrigar-me a ficar. Não o faço por medo. Por cobardia. Já fui capaz de ir para o meio de um incêndio ajudar algumas pessoas, que nem conhecia, a salvar os seus bens. Disseram que fui corajoso, que podia ter ficado lá no meio.
No entanto sou tão cobarde... Sempre fui assim para expressar os meus sentimentos. Por muito que tente mudar não consigo. Até nisto sou um triste. Uma alma a penar no meio de um mundo em constante mutação. Muitas vezes dou por mim, no meio da multidão, a pensar na solidão, naquele momento, a pensar no que faço ali. Enquanto não me erguer e berrar bem alto os meus sentimentos nunca me vou sentir bem.
O self-control que tenho ajuda-me a acalmar e a manter a suficiente distância para ver com clarividência. Sou aquele que consegue manter a calma em plena catástrofe. No entanto, sou aquele que perante a catástrofe da sua vida, não faz nada. Gostava de perder os meus medos por um instante e dizer tudo aquilo que me vai no coração às pessoas. Uma a uma. Todas perante mim. Um juízo final. Talvez algumas pessoas tivessem surpresas perante o que lhes ia dizer. Mas não tenho essa coragem. "Cobarde! Cobarde! Cobarde!". São os gritos que ecoam na minha cabeça neste preciso momento.
Perante esta pessoa que que me tornei, tenho algumas certezas. A certeza de que hoje seria capaz de tomar conta de uma mulher, de amá-la e respeitá-la, de tomar conta dela, de a proteger, de a mimar. Aliás os mimos que nunca tive, guardo-os ainda, para quem algum dia os quiser. Se é que alguém vai querer um tipo como eu... Nem é preciso mimarem-me, fico feliz apenas se oferecer os meus mimos a uma mulher.
Mereço ficar sozinho por tudo aquilo que fiz no passado. Não podemos apagar o passado. Como eu queria... Mas pelo menos pedi desculpa a quem tinha de pedir. Apenas posso corrigir os erros e tentar que alguém ainda goste de mim, mas com a minha eterna cobardia, tenho medo de me magoar de novo. Tenho medo de avançar demasiado. Tenho medo de não ser correspondido. Nem precisava que me amasse, apenas que gostasse um bocadinho pequenino de mim e que estivesse disposta a aturar-me. Existem mulheres perfeitas e seres totalmente imperfeitos e trogloditas como eu. Como posso eu esperar algo?
Estou num daqueles momentos em que costumo dizer: "Que toda a tristeza do mundo caía sobre mim e que toda a alegria do mundo abrilhante a vida dos meus amigos e das pessoas de quem gosto." Estou habituado a estar triste. A segurar as pontas aos amigos que estão mal. Não me importo minimamente com isso. Acho que consigo ser melhor e mais útil nesse momentos maus do que nos momentos de alegria. Como posso eu ajudar à festa se ao fim e ao cabo ando sempre triste?
Sinto-me pronto para partir neste momento. Ninguém irá sentir a minha falta. Já não há esperança.
PS: Desculpem-me os leitores, mas é assim que vai a minha alma.