quarta-feira, 23 de julho de 2008

Angels & Devils of Love

Há muitos anos atrás foi baptizada com o título deste post, uma das festas mais loucas vividas pela minha pessoa. Uma grande amiga que geria talvez o único local de culto nocturno que mantenho desde os 15 anos, lembrou-se deste nome quando convidou um grupo de DJs de top mundial. Foi talvez a festa mais louca que vivi. Em dois planos... no plano musical e no plano diabolicamente sedutor de uma festa que começou ao sunset e acabou ao sunrise. Foi uma noite extraordinária. Ainda hoje quando estamos juntos falamos desse momento inesquecível.
Tudo começou ao largo da praia... o mais próximo possível à costa. O patrocinador arranjou o local mais estranho que se lembrou para começar uma festa. Num catamaran. Exactamente! Um catamaran! A presença dentro do barco era apenas para convidados. Os restantes mortais observavam da praia. O sol começava a pôr-se quando atracou em frente ao bar e à praia. O mar como sempre cálido e sereno, apenas incomodado pelo potente som que largavam as colunas e a mesa. Era potente, mas chillout tal como convém esta altura do dia. Lá em cima os convivas dançavam esquecendo-se de quem eram, mais ou menos importantes não interessava nada, éramos apenas umas almas levadas pelo ritmo da dança e embaladas pelas curtas ondas do mar Mediterrâneo. O pessoal, em fato de banho, aproveitava ainda o local da festa e atirava-se do barco para o mar, mergulhando a sós ou em grupo e parecia desejar que aquele fim de tarde nunca mais terminasse. No entanto, o sol teimava em pôr-se e mal demos por isso era noite.
O jantar frugal e bem regado, tal como toda a festa, foi servido ainda naquele local. Entre mergulhos e comida toda a gente escapou stoned immaculate!
Saímos dali para a discoteca... noite dentro a dançar a conviver... corpos ondulantes a curtir o som... seres unos e apenas interessados no movimento humano... no suar dos corpos... no prazer que emanava dos sorrisos que cortavam a noite e a iluminavam como se fosse o mais solarengo dos dias.
Lembro-me que de repente se fez silêncio, curto e começou a passar "Beds Are Burning" dos Midnight Oil. Não tinha nada a ver com o som que passavam os djs. Não tinha nada a ver com a festa onde diabos e anjos passeavam pelas colunas em danças sedutoras. Mas quando chegou o tempo desatamos a cantar "How can we dance when our earth is turning /
How do we sleep when our beds are burning"... Naquela noite as camas estavam de facto a arder... Naquela noite fomos meros Angels & Devils of Love...

segunda-feira, 21 de julho de 2008

How Bizarre

Ficaram alguns posts para colocar aqui, mas ando a matutar numa cena que me aconteceu há uns dias. Uma cena que por não ser normal acontecer me deixou a pensar.
Fui sair numa destas noites quentes de Verão. Conversa agradável. Partilhava a mesma mesa uma mulher que apenas tinha visto fugazmente há uns anos. Dois ou três talvez. Foi algo tão rápido que apenas nos cumprimentamos e trocamos meia dúzia de palavras.
Moramos incrivelmente perto, mas nunca nos cruzamos. Como ela disse ao fim da noite "este mundo é tão incrivelmente pequeno que por vezes se torna incompreensivelmente grande". Foi assim a nossa despedida. Fiquei a observá-la entrar em casa e quando a porta se fechou, não pude deixar de matutar no que tinha acontecido durante aquelas curtas horas.
Foi tudo tão rápido que fiquei a duvidar se foram sinais que tinha interpretado mal, ou então, se não foi mesmo tudo fruto da minha imaginação. Sei que não foi tudo fruto da minha imaginação. Talvez por mim tenha passado um diabo vestido na pele de um anjo, talvez tenha sido o diabo em mim que tenha passado ao diabo nela. Um diabo incompreensivelmente arrasador, mas ainda mais pelas parecenças do passado.
Ao início... simpática, mas distante... Minutos volvidos... simpática, mais próxima, provocante qb... sem nunca ser vulgar... os toques... os gestos... a suavidade nos movimentos... as palavras colocadas na hora exacta no sítio certo. Cada cigarro fumado caminhava da sua boca como se tratasse de um anjo fumegante. Confesso que me perdi naqueles gestos. Olhares fugazes... Toques rápidos... Duas provocações mais claras. Revivi momentos de um outro Mefistófeles. Foi uma noite fantástica. Revi uma amiga e encontrei uma vizinha... adorável.
O seu olhar pleno de calma e avidez de conhecimento. O seu riso confiante. A sua cultura clara. Sabe quilo que quer, como e quando quer. Provoca no momento certo. Da forma mais clara, mas menos vulgar possível. Semeia a dúvida na cabeça de quem quer. A sua pele suave tocou variadas vezes na minha. Falou bem de perto. Fez-me sentir o seu cheiro. Os seus cabelos tocaram na minha face. Até no momento em que disse que os meus olhos eram bonitos acertou. Apanhou-me totalmente com a guarda em baixo e o toque gentil no canto do olho, despertou-me os sentidos. Pouco depois apanhei-a em flagrante. Olhava-me e nem sequer tentou desviar o olhar. Quando menos esperava toquei-lhe no queixo. Brinquei com o buraco no queixo tal qual eu tenho. Sorriu com um olhar dócil.
Os toques eram repetidos no braço. Durante muito tempo continuou assim. Durante muito tempo andou a brincar comigo naquele seu jeito de anjo diabólico. O seu pé passou por baixo da mesa e descansou na cadeira em frente. Não pude deixar de dar alguns olhares. Passou-me pela cabeça como é que ele tinha ido ali parar. Pela segunda vez em toda a minha vida tive o seguinte pensamento: "incrível até o pé é lindo!". Enquanto bebíamos e conversávamos, roubava-me o isqueiro para fumar mais um cigarro. Quando abandonamos o bar, disse-lhe para procurar o isqueiro. Ela sorriu e largou um "se não encontrar não há crise... facilmente me devolves", mas acabou por o encontrar no bolso de trás das calças. Fez-me questão de mostrar. Não consegui deixar de olhar para onde tinha a mão. Não faças isso outra vez! Já o tinha feito quando se inclinou para procurar o isqueiro antes de seguirmos para o bar. Duas vezes um coração não aguenta!!!
Todo o caminho de volta seguiu encostada aos bancos da frente. Conseguía sentir a sua respiração no meu pescoço. Estava cada vez mais louco por aquele jogo. Milhares de pensamentos corriam a minha mente a uma velocidade extraordinária. Convidou-me a entrar em casa. A nossa amiga em comum ficou de lhe dar os meus contactos. No dia seguinte... já os tinha... e não consigo tirar uma frase da memória... "Sade es-tu diabolique or divin?" Não sei... Ainda hei-de descobrir!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A Despedida

Sexta Feira foi, para mim, um dia de despedida. Uma nova fase da minha vida começou esta semana e, como sempre fiz, faço e continuarei a fazer, despedi-me das pessoas, dos locais habituais, das ruas. Não gosto de despedidas formais. Não vou para longe, mantenho-me na cidade, mas longe das ruas calcorreadas dia após dia... ano após ano. Cada passo foi pesado. Cada palavra foi profundamente triste. Cada olhar produziu uma sensação de adeus.
Mudar de local, de hábitos não é assim tão mau. Não tenho medo de o fazer, mas a minha personalidade, a minha forma de ser obriga a despedir-me das pessoas, dos lugares, da cidade que tanto amo, como se fosse a última vez que a olhasse. Sem nenhuma vontade de chegar a casa, arrastei-me pelas ruas percorridas diariamente durante quase 28 anos.
Sei, e sempre soube, que estou ligado a esta cidade por graus mais fortes do que aparentes. O Porto, a baixa, a Foz correm-me nas veias. Gostando ou não da cidade nunca lhe conseguimos ser indiferentes. Que digam os meus amigos oriundos de várias partes do globo e que, tal como eu, aprenderam a amar este nobre burgo tal como ele é. Nobre, sombrio, com umas gentes e uma luz única. Sem sair da cidade, deixei a beleza e parti para o seu lado mais fabril e triste. Por isso me despedi com tanta tristeza. Os locais de culto vão passar a ser locais de visita. Esse facto dói cá dentro.
No passado muitos honraram a cidade e as suas gentes. Talvez o acto mais marcante tenha sido o de D. Pedro IV quando após a sua morte, como agradecimento ao apoio prestado pela cidade durante o cerco do Porto pelas tropas absolutistas do seu irmão D. Miguel, doou o seu coração à cidade. Talvez por ser um dos poucos privilegiados que tiveram a hipótese de ver aquele coração com os próprios olhos, corre dentro de mim uma certeza.
A certeza de que era capaz de morrer para te defender... minha querida mui nobre e sempre leal cidade Invicta.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Cose Della Vita II

O dia de ontem não foi melhor que o de Sexta. Bem pelo contrário. Esperava poder tirar o dia para pensar calmamente na vidinha e acertar certas coisas. Até ao momento em que ao almoço, um vizinho da minha avó desata aos berros a pedir ajuda. Fomos a correr para ajudar, mas aquilo com que me deparei foi uma cena... no mínimo dantesca. O fogareiro onde assava umas coisas tinha, não sei como caído e queimou a senhora na barriga e nas pernas. Como sempre acontece tentei processar aquela informação toda em segundos e não restaram dúvidas. A melhor opção era o INEM. Só me apercebi realmente da gravidade, pelo olhar preocupado dos médicos.
A cena afectou-me e estragou-me o dia. Afinal é a mesma senhora que ainda hoje me oferece chocolatinhos, como se fosse o mesmo miúdo que conheceu. Apesar de não mostrar sinto uma enorme afeição por aquele casal e uma grande amizade. São muito poucas as pessoas que ainda conheço e que me conhecem desde que nasci.
Hoje estou mais descansado. É uma situação grave, mas está fora de perigo e parece que não afectou nada internamente. Apesar disso são queimaduras de 2º grau. O tempo de recuperação vai ser bastante prolongado, mas felizmente daqui a uns tempos vai poder-me voltar a dar chocolates com o seu sorriso terno e sem saber bem se me há-de tratar por tu ou por você. É estranho como ela continua com essas dúvidas depois de ter sido esclarecida. Sou tu para quase toda a gente!
Não sou uma pessoa com grandes medos. Aguento bem situações de ossos partidos, corpos desfeitos e tudo isso. Mas talvez por saber qual é a sensação provocada pelo calor excessivo, situações de queimados são muito penalizadoras para mim. Ser queimado deve ser horrível. Nesse aspecto sou mesmo uma flor delicada... qualquer coisa me queima. Mas são situações que podem acontecer a qualquer pessoa, por acidente ou descuido. Enfim... como diz uma amiga... sono cose della vita!

Cose Della Vita I

Tive um fim de semana no mínimo estranho. Sexta ao tomar café à noite no sítio do costume. Converseta agradável e tal, quando vejo um fantasma. Fantasma do passado. Confesso que por curtos minutos fiquei sem saber o que fazer. Falo não falo? Será o namorado dela ou não? Quem tomou a iniciativa acabou por ser a C. Pelo canto do olho consegui vê-la a olhar vezes sem conta para a minha mesa. O telemóvel acabou por tocar e vi o seu nome. As dúvidas voaram e percebi que o gajo que a acompanhava a ela e a uma colega de trabalho não era o namorado. Senão não tinha tomado aquela atitude. Tentei parecer o mais inocente possível e procurei no meio das pessoas. Como se não soubesse que ela estava mesmo ali à frente...
Lá me levantei e trocamos umas palavras de ocasião. Como estás? O que fazes? Como vai o trabalho? Aquelas cenas do costume. Por ser tão inesperado acho que foi uma situação desconfortável para os dois. Já não nos víamos vai para mais de muito tempo e já não falávamos vai para lá desse tempo. Na minha cabeça não restavam dúvidas que aquilo que um dia tivemos, estava acabado e não havia mais nada para sentir entre os dois. Creio que aquela foi a prova dos nove que tirei. Olhei para ela e não senti nada. É incrível como aquele amor se diluiu no tempo. É incrível como o tempo cura tudo, mesmo deixando recordações de momentos especiais que nunca esqueceremos.
Não sou hipócrita e, por isso, não digo que não a gostei de ver. Gostei de ver que está bonita na sua beleza singela. Gostei de ver o seu sorriso. Não pude contudo deixar de me perguntar se aquele sorriso, como tantas vezes aconteceu, não escondia uma tristeza profunda. Fomos os dois politicamente correctos e não fizemos perguntas difíceis. Sempre as evitamos desde que nos separamos. Não pude deixar de reparar nas inúmeras vezes que olhou para a nossa mesa. Olhava porque eu estava numa posição em que ela pensava que não a via. Estrategicamente coloquei-me em posição de a observar com a visão periférica. A mente humana é lixada. Anda sempre com estratagemas para fazer joguinhos psicológicos. Honestamente espero que não pense que um dia possa voltar atrás e possa voltar a ter-me. O seu tempo passou. Tal como ela me disse era a altura de encarar a vida. Doeu, mas passou. Claramente o nosso amor acabou e ela fez a escolha que achou correcta.
A mim restou-me encarar o facto e curar-me. Agora que estou pronto para outra, não posso deixar de sentir um carinho especial pela C. Não guardo rancores nem tristezas. Sei que merece melhor do que tem, mas foi o caminho que decidiu tomar. Ficamos "amigos" numa amizade estranha. Só sei que quero o melhor para ela. O melhor, que sem sombra de dúvida, não sou eu. Tenho pena que tenha tomado aquela decisão. Tenho pena que não seja feliz e que se enterre num monte de trabalho e de alucinações estudiosas para não pensar. Se calhar até está certa ao fazer isso. Pensar é doloroso, mas se não pensarmos no que queremos, como queremos e quando queremos, o tempo não joga a nosso favor. E sinceramente espero que ela não deixe passar o tempo. Sei que vai jogar o que tem até ao fim. Lutar até ao fim como me disse um dia. Desconfio que quando esse dia chegar vai ser tarde demais e vai estar sozinha. São opções... certas ou erradas... isso só depois de jogarmos as cartadas todas é que o sabemos.