sábado, 4 de outubro de 2008

A Given Saturday

Sábado 27 de Setembro de 2008, 16 horas:
Dirijo-me para o carro com uma ansiedade que nunca tinha sentido. Pelo caminho a ansiedade continuava a crescer, fui sem saber bem o que ia encontrar e quem ia encontrar. Os pensamentos e as recordações ecoavam na cabeça. Bons momentos, maus momentos, os piores momentos da minha vida. Todos eles passavam por mim enquanto conduzia a uma velocidade excessiva. Era o reencontro de um grande amor, o único que dura há 28 anos.
Ia muito bem acompanhado. Ia precisamente com aqueles que me são mais queridos, e com uma grande e profunda surpresa. O meu pai e o meu avô (a minha surpresa com este senhor é diária, mesmo aos 86 anos não o consigo deixar de admirar) responderam à chamada!
Pelo caminho, bem conhecido, a ansiedade era tanta que me consegui perder e enganar no caminho. Não consegui deixar de ecoar um profundo e sonoro "foda-seeeeee!". Finalmente estacionei o carro. Caminhei rapidamente para onde queria. Sentia um chamamento, como se fosse o renascer dos momentos gloriosos, do sofrimento que vale a pena, do grande amor e da grande paixão da minha vida.

Sábado 27 de Setembro de 2008, 16.30:
A fila era já enorme para comprar bilhete. Cá fora viam-se os conhecidos do costume. Caras com quem já falei, pessoas com quem nunca falei, mas são tão conhecidos para mim como eu sou para eles. A união comum... os sorrisos de verdadeira felicidade por partilharmos este regresso ao amor de uma vida. Velhos, de meia-idade, jovens, miúdos, crianças. Todos! O sangue é vermelho e corria a uma velocidade fora do comum nas nossas veias. Finalmente entrei para um campo que me trazia ternas e gratas recordações de infância. A última vez que lá tinha entrado devia ter uns 11 anos. Nesse momento, parece que estava a rever o meu pai dentro das 4 linhas com a camisola vermelha de águia ao peito. Recuei para me relembrar que o meu avô me segurava pela mão enquanto via aquele jogo de andebol de 11... tantos anos passaram. Foi uma vida...

Sábado 27 de Setembro de 2008, 17 horas:
O regresso do meu amor estava marcado para essa hora. A partida atrasou-se, mas nesse momento correu-me um arrepio forte na espinha. Estava de volta o nosso hino. O hino do velhinho e histórico Sport Comércio e Salgueiros. Sim esse é o meu grande amor... de toda e para toda a minha vida... As lágrimas vieram marotas aos olhos. Os óculos de sol tapavam essas lágrimas que não deixaram de escorrer cara abaixo. Não consegui exprimir uma palavra. Olhei para o meu pai... estava na mesma. O meu avô permanecia calado, como um menino. Alguns cantavam, outros aplaudiam ao ritmo da música, mas na face de muitos que naquela hora já enchiam o Parque de Jogos da Senhora da Hora, era momento de deixar as lágrimas correr. Todos estávamos ali com o mesmo sentimento. Tal como a Fénix que agora ocupa o lugar da águia, todos nos sentimos renascidos. Estávamos calados há demasiado tempo...

Sábado 27 de Setembro de 2008, 17.15:
Finalmente as camisolas encarnadas estavam de volta a um relvado. Tanto nos faz que seja na Liga Sagres como na 2ª Divisão Distrital. O jogo correu mal. Jogamos bem, mas perdemos. O que interessa é que estamos de volta! Quanto a mim ficavam parvos se me tivessem visto. Os impropérios, as palavras de ordem, os gritos de apoio, a pressão feita em cima de jogadores adversários e daquele boi (agora vestido de azul em vez de negro) foram tão grandes que cheguei a casa quase sem voz. Foram 4 anos entalado, muito tempo, tempo a mais, como disse a um vizinho e a uma pessoa que muito respeito pela sua idade e pelo apoio que teve na carreira do meu pai e posteriormente na minha.

Sábado 27 de Setembro de 2008, 19.15:
Terminada a partida e com uma derrota no bolso, voltei para casa. Curiosamente não estava minimamente aborrecido com o resultado. O que me fazia falta era sentir de novo a paixão, o sofrer por uma boa causa. Fazia falta poder aborrecer-me com algo para lá da vida quotidiana. Fazia falta poder discutir o penalty não marcado, o fora-de-jogo que não existiu. Vim de lá como um menino a quem voltaram a dar o seu brinquedo favorito.
O Salgueiros é muito mais do que um clube. É um estado de alma. Por muito que tente aqui exprimir o porquê de me sentir assim, por muito que tente explicar este amor... não consigo. São estes sentimentos inexplicáveis que definem o bom da vida e aquilo que somos. Quem, como eu, envergou aquela camisola durante muitos anos, quem orgulhosamente e com todo o sentido de responsabilidade usou uma braçadeira de capitão daquela casa, conhece a mística, a alma. Foi lá que comecei a ser moldado como homem, foi lá que conquistei as minhas internacionalizações, foi lá que pela primeira vez me senti responsável e símbolo de algo maior do que a vida.
Como alguém disse um dia, um homem pode mudar de país, de mulher, de sexo, de religião, mas nunca de clube. É exactamente assim que sinto. E voltei, tal como o clube e o seu emblema, uma Fénix renascida das cinzas. Esperam-nos, com certeza, mais tardes de glória, mais tardes de sofrimento, mais alegrias, mais tristezas, mais abraços nos festejos e ainda mais abraços nas desilusões.
No futebol como na vida, não mais somos do que peões de algo maior. Renasceu a paixão, o amor, a febre. Voltei a ter o amor que me tem andado a passar ao lado e, finalmente, posso gritar de novo e ainda com mais força:

AMO-TE, SEMPRE TE AMEI E SEMPRE TE IREI AMAR SALGUEIROS!

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