sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Tempo

Sentei-me para meditar. Meditar sobre o tempo. Estranha vivência, esta do tempo e do seu correr. Todos nascemos e a partir desse instante de tempo nos dirigimos para o final da passagem nesta vida.
Surge esta divagação através de notícias surgidas de um país, pode ser qualquer um, e da morte de um jovem ao qual subtraíram o resto do tempo, ainda longo, presumo, que teria para viver.
Curioso este passar de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milénios… Chamam-lhe história. Desde os dinossauros ao antigo Egipto, onde humanos construíam pirâmides a honrar os deuses. A terra que ainda nos surpreende todos os dias.
Todos construímos a nossa história com o tempo. Fazemos a história do mundo ou vivemos com as nossas pequenas glórias. Recordo agora com saudade o tempo que já passou. Relembro com saudade o terno sorriso da minha avó quando chegava da escola, o seu beijo carinhoso, as brincadeiras despreocupadas de menino.
Volto a olhar para trás e revejo agora as tardes passadas no café entre amigos a conversar, fumar um cigarro, jogar dardos. Nunca me esquecerei desse tempo. Perdido dirão alguns, mas não acho que tenha sido. Nem toda a educação nos é oferecida na escola. As conversas vazias e sem sentido fazem-nos sentir adultos. Recordamos o beijo a uma colega, o golo marcado no campo. A vida vivida sem grandes preocupações, tal como deveria ser.
O tempo corre depressa. E hoje sento-me diante desta página vazia a olhar para o passado. Do qual entre dor, alegria, mistérios e todas as outras loucuras de outro tempo, de outros abismos parecem agora tão distantes.
Fico na sincera dúvida daquilo que por vezes fiz e escrevi tenha sido válido, mas nunca me arrependerei do que fiz. É certo, gostava de ter feito outras coisas, corrigir certos erros, mas com o decorrer do tempo, com mais calma e outra velocidade irei fazer, corrigir, enfim viver…
O tempo dos abismos já lá vai. Cresci. Consigo agora “perder tempo” a admirar a beleza em redor da vida. Deixou de ser um desperdício de tempo sentir o cheiro de uma rosa, o pôr-do-sol num dia de verão, o mar forte e bravio numa tarde de Inverno. Faço isto sozinho, sem companhia. Ainda não arranjei a companhia ideal para assistir a pequenos momentos de beleza num mundo em destruição.
Recordo-me que não há muito tempo num final de tarde de verão, caminhava pela cidade e observava a sua luz. Sinto-me uma pessoa com sorte por viver numa cidade onde a luz é única. O sol quase a desaparecer, a iluminação prestes a ligar-se. E pensei, pensei que nesse momento tudo aquilo que observava era tão belo. Tão belo que por um segundo o tempo parou, ou terei sido eu que parei? Vi as pessoas desenfreadas a passar ao meu redor, os carros a acelerarem rua fora e continuei imóvel a sentir a delícia daquela segundo.
Quando somos jovens nem sequer conseguimos pensar nestas coisas. Andamos demasiado ocupados. Por isso, quando sinto o tempo a correr, sinto-me adulto, com tempo e vontade para encarar a vida de frente e observar a beleza deste mundo. Observo a beleza de uma mulher mais profundamente do que tão só a sua beleza física, observo as paisagens que me inspiram e fecundam na doce vontade de escrever, observo o mundo e acredito que na loucura quotidiana ainda existe espaço para amar como um ser maior. Como eu cresci!
Hoje sinto que toda a dor que passei ajudou nesse crescimento como ser humano. Ajudou-me a encarar a vida noutro sentido. Sinto falta, por vezes, daquele arrebatamento que o amor transmite. Ficar sem fôlego quando vemos a pessoa amada. O coração a bater mais forte, o pensamento de onde essa mulher não sai nem por um minuto.
O tempo deu-me a hipótese de amar com toda a força duas vezes, mas das duas vezes perdi. Será que terei hipótese de amar a terceira? Não sei. Mas para quem imaginava que só ia conseguir amar uma vez, sinto-me com sorte.
O tempo que corre consegue fazer-nos mudar, ver com mais calma e mais claramente certas coisas. Mas a paixão continua viva, seja pelos noventa minutos sofridos num estádio qualquer ou no correr do cigarro que saboreamos.
Tenho sorte. Sorte por ainda ter o tempo que a outros foi tirado. Sorte por ainda acreditar que vou ser feliz ao lado de uma pessoa. Mas tenho de ter cuidado com o tempo, pois nunca se sabe quando ele vai terminar.

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