Inês de Castro
Toca-me bem fundo a beleza trágica deste amor. Talvez porque já amei uma mulher que também morreu, não da mesma forma profunda até porque não tivemos tempo para o viver.
Por isso todos os locais onde esta história aconteceu tocam-me e despertam em mim aquele sentimento saído bem lá do fundo, de uma espécie de magia e paz. Como é possível sentir paz em locais onde tão atormentados viveram aquelas duas almas? Talvez pelo encanto da história ou pelo encanto por saber que ali aconteceu e viveu uma das damas mais formosas que alguma vez este país viu. E aconteceu a mais bela história de amor de todos os tempos.
Tudo isto para falar do livro “Inês de Castro” da autora espanhola Maria Pilar Queralt del Hierro. Este livro conta uma história que todos conhecemos e que já foi contada por poetas e artistas durante séculos a fio. Mas que nunca perde a sua beleza e emoção. Confesso que da primeira vez que a ouvi chorei convulsivamente. E que ainda hoje me consegue arrancar uma lágrima das mais sentidas.
Pensasse que corria o ano de 1320 quando nasce na Galiza, D. Inês de Castro. A sua infância percorrida entre Portugal e a Galiza talvez de forma pouco venturosa visto que tão formosa senhora raramente falava desses tempos. Muito cedo Inês conhece a dor da solidão e aos dez anos, aquela criança loira e de olhos azuis, parte para Castela onde se torna irmã de alma de D. Constança, que mais tarde viria a Princesa de Portugal.
Em 1339, Constança parte com a sua dama de companhia para casar-se com o Príncipe D. Pedro, mas ainda antes de entrarem no Castelo de S. Jorge nasce o amor entre Pedro e Inês. Após o casamento, Inês encontra-se reservada e evita todo o contacto com as suas artes favoritas. Só ela sabia o que estava a corroer-lhe o coração e a retirar toda a sua vontade de viver. Evitava acontecimentos sociais penitenciando-se do amor que sentia pelo marido da sua irmã de alma.
Inês, antes de vir para Portugal, era uma menina irrequieta que adorava correr e passear a cavalo pelos campos, gracejando com um amor que perdurasse para além da morte… Quando Pedro e Inês se cruzavam, os olhares e os gestos trocados fizeram que a bela dama perdesse todas as dúvidas do sentimento do Príncipe.
Pedro respeitava Constança pela sensatez e serenidade mas amava perdidamente Inês pelo fogo do seu temperamento “Inês era a força da cascata, o rumor do mar enraivecido, o roçar do vento quando o cavalo se lança a galope”.
Os dois amantes dilacerados pela dor do seu amor, mas incapazes de resistir a esse mesmo amor que é sua razão de viver, vivem com a mente na traição de que apenas são vitimas.
A morte de D. Constança afasta-os por algum tempo, mas após esse momento, os dois irão viver na Quinta das Lágrimas o amor em todo o seu esplendor. Quatro filhos surgiram dessa união de amor.
Pouco durou a felicidade dos amantes, já casados. Os ultrajantes cortesãos portugueses preparam-se, então, para manchar de sangue o belo pescoço de Inês. Mas mesmo após a morte, o amor perduraria e fez com que D. Pedro, coroado Rei de Portugal perseguisse, torturasse e arrancasse o coração dos bastardos que mataram a sua amada.
Após a conclusão do Mosteiro de Alcobaça, Inês seguiu em cortejo secreto para o túmulo que ainda ocupa hoje – sepultada frente a frente ao seu amor, para que no dia do Juízo Final os dois se erguessem e D. Pedro pudesse encarar de frente os olhos da sua bela Inês. Antes de a sepultar eternamente, obrigou todos os membros da corte a prestarem vassalagem a Inês, coroada Rainha de Portugal, após a sua morte.
Maria Pilar Queralt del Hierro descreve de forma única e magistral a beleza trágica deste amor. “Numa obra que perdurará, certamente, na memória do leitor”.
Muitos historiadores dirão que D. Inês foi uma mulher hábil e intriguista. Para os outros uma mulher belíssima que viveu talvez a maior história de amor de todos os tempos. Prefiro optar pela segunda opção. Chamem-me romântico, mas nenhum falso amor pode ser vivido com esta força e sobreviver à morte dos dois amantes e a mais de 650 anos de uma história que tende a apagar os amores e desamores desta vida.
Cada vez que calco as pedras do mosteiro de Alcobaça, e tento-o fazer de cada vez que rumo a Sul, viajo entre a história, a beleza e a autenticidade deste amor. Dentro daquele enorme monumento, encontro a paz necessária para pensar em todos os meus amores e desamores. Sinto uma paz interior que não consigo encontrar em nenhum outro local. Choro em silencio por tudo o que já passei e presto a minha justa vassalagem à Rainha mais bela que este país já viu!

0 Comentários:
Enviar um comentário
Subscrever Enviar feedback [Atom]
<< Página inicial