terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Galicia

Ontem, como todas as noites, passei religiosamente pela TVGalicia. Estavam a passar um espectáculo com um nome curioso "C2 Convivir Convivências". Este programa fez-me recuar a uma tarde do mês de Fevereiro de um ano tão longínquo que já nem recordo qual foi.
Não passava de um miúdo com poucas convicções, com quase ou nenhuma certeza. Um miúdo que que tinha ido passar uns dias a Vigo. À tua casa. Recordo-me de esse dia como se fosse hoje. Sei pelas longas conversas que já tivemos sobre essa tarde, que também a recordas. E nessa tarde, tu mudaste parte da minha vida. Fiquei de imediato com uma certeza.
Era meio-dia. Estava um sol lindo e um frio de morrer. Quando fui ter contigo, observei-te. Na mesma esplanada de sempre. A aproveitar o sol frio de Inverno para ler, a tua companhia de sempre. Um livro. Aproximei-me timidamente e por entre os óculos de sol, pude ver os teus olhos belíssimos, concentrados nessa leitura. Curioso como ainda hoje me atrais da mesma maneira que me intimidas.
Depois de algum tempo, ganhei coragem e perguntei o que lias com tanta atenção. Era um livro sobre a história da Galicia (permitam-me que escreva em galego o nome dessa terra abençoada).Foi nesse momento que tudo mudou. Como sempre nos teus movimentos (cativos de uma beleza, calma e ponderação extraordinária) fechaste o livro e começaste a falar.
Explicaste a nossa história comum. A união de dois povos num mesmo. A ligação "mais forte do que aparente" (como sempre dizes) que nos une. Enquanto falavas com as mesmas palavras mágicas que ainda hoje usas, senti-me pela primeira vez em casa. Falaste de locais que nunca tinha visto. Viajei através das tuas palavras por eles e compreendi, então, o teu amor pela tua terra. Pela nossa terra.
Disseste-me que não éramos dois povos, mas sim seis milhões de pessoas, separadas por um rio. Mas esse rio não era local de separação. Era, é e será sempre o elo de ligação entre nós. A partir dessa tarde compreendi e passei a amar ainda mais a nossa terra, a nossa casa.
Podia agora falar da nossa euro região e do medo do qual os centralistas padecem. Medo talvez que nos possamos tornar ainda mais fortes e quase independentes. Afinal somos iguais. Não vou falar de politiquices... é demasiado fácil. Vou continuar a falar dessa tarde. Que passou, sempre num frio gélido, mas no calor das palavras e dos gestos.
Explicaste-me que eras galega, depois portuguesa e apenas porque nasceste no outro lado da margem, espanhola. Aliás tantos anos volvidos continuas padecer da mesma maleita. Recusas-te com toda a determinação a falar castelhano. Falas apenas quando estritamente necessário. De resto a tua língua é a minha.
Disseste que éramos irmãos. Não como aqueles irmãos ligados por laços familiares, mas antes por tradições, costumes e por uma língua mater. É verdade. Resta apenas que os nossos costumes, tradições e língua se tornem património imaterial da humanidade. Mas tu e eu, assim como muitos dos nossos irmãos, não necessitamos verdadeiramente desse simbolismo. Estamos ligados por graus mais fortes do que aparentes!
Nenhum de nós é raiano. Nascemos em grandes cidades. Mas é incrível como nos sentimos raianos quando atravessamos o Rio Miño e chegamos à outra margem. Sempre disseste que te sentes em casa até chegar à Ponte D. Luís. Como te percebo... Atravessar aquela ponte rumo a sul, custa muito mais do que atravessar qualquer ponte rumo a norte. Ao teu sul. Ao sul da nossa casa.
Essa tarde minha irmã... essa tarde... As tuas palavras mudaram a minha forma de sentir. Foi nessa tarde que nos tornamos irmãos de alma e irmãos de sangue. As tuas palavras correram em mim, aquecendo o meu sangue e o meu corpo de paixão. A paixão que sinto até hoje por este cantinho onde vivemos. As tuas palavras de amor, de carinho, de paixão. As palavras que te enchem de vida e em que te tornas um ser apaixonado. Talvez a única coisa que te apaixone verdadeiramente na vida seja a nossa terra. É no momento em que falas dessa forma que te tornas ainda num ser superior. As palavras fluem da tua boca a uma velocidade muito maior ao habitual, com um ardor mais forte. Os gestos transformam-te. Deixas de ser aquela pessoa altiva para desceres ao nosso mundo.
Já reparaste como mudamos? Como crescemos juntos? Como o nosso amor continua a contemplar este cantinho enorme em que vivemos? Como ainda hoje nos continuamos a considerar irmãos?
És verdadeiramente a irmã que nunca tive. Sei que sentes o mesmo por mim. Faltava-te um irmão mais novo. Só tens irmãs em casa. Este amor que sentimos um pelo outro empurra-nos ao encontro, nem que seja a meio do caminho nem que seja apenas por uns breves momentos. Sei que estou em dívida para contigo. Falta o tal encontro adiado desde o Verão. Falta a partida, tantas vezes adiada, ao encontro das nossas origens, das nossas terras. Essa partida vai acontecer um dia. Sem data de partida nem data de chegada. Sabemos isso. Sabemos isso porque estamos ligados por graus mais fortes do que aparentes (carrego insistentemente nesta tecla, tal como tu!). Talvez por essa ligação não cobramos nada um ao outro. Talvez por essa ligação muitas vezes o silêncio fala por nós. Talvez por essa ligação um 0lhar basta para nos compreendermos. Talvez por essa ligação sejamos verdadeiros irmãos.
Sabes o que penso de ti enquanto pessoa. Disse-te muitas vezes. Disse-te vezes sem fim. Não te considero boa pessoa. Mas mesmo assim e por tudo aquilo que me ensinaste e que me deste sem pedir nada em troca, vai ser sempre a minha irmã de alma. Até porque nunca na vida foste capaz de mudar. És capaz de viver sem amor. Não precisas dele. Admiro-te. Mas o teu amor é tão grande e tão insaciável que só podia ser por uma terra inteira.
Irmã... A gente vê-se por aí ou então pelas paisagens maravilhosas da Costa da Morte! Afinal estamos ligados por graus mais fortes do que aparentes!

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